1 - A LENDA DO AMOR

Escócia, Século XV
Entre presente e passado, um amor de sonho ou de verdade?...
Uma maldição secular condenou o lorde de Blackstone a vagar como um fantasma entre os muros sombrios de seu castelo.
Apenas uma mulher poderá libertá-lo.
Seria ela a jovem e graciosa Elizabeth, que acabou de desembarcar na ilha?
Elizabeth avistou o belo espectro no momento em que cruzou os limiares do castelo.
Duncan MacDougall é uma figura alta e translúcida, com cabelos escuros e penetrantes olhos azuis. Mas uma cortina de névoa o mantém isolado do mundo real...uma névoa densa, fria, sólida como aço. Segundo a lenda, somente um grande amor poderá dissolvê-la... e trazer de volta à vida o homem dos sonhos de Elizabeth!
Capítulo Um
Drasmoor, Escócia
Com um bocejo, Duncan
MacDougall, o lorde do Castelo Blackstone, espreguiçou-se na enorme cama, e
depois praguejou ao sentir o odor do charuto de Robert Sheffield. Oito semanas
já haviam transcorrido desde a morte do velho, e ainda assim o odor nauseabundo
ainda impregnava o solar.
Quem viria a seguir?
Duncan rezou, não seria
outro fumante de charuto e, melhor ainda, que fosse uma mulher. Temia por seu
lar, onde era prisioneiro, entre a vida e a morte, havia tanto.
A rainha Vitória acabara
de falecer da última vez que um jovem da família reivindicara Blackstone.
Duncan sorriu ao lembrar de John e de sua adorável esposa, Mary. Sentia saudade
de seus filhos também. Havia muito que não escutava o riso de uma menina ou via
um menino brincar com os soldadinhos de chumbo que no momento estavam guardados
na ala oeste.
E se Silverstein não
encontrasse um novo herdeiro? Pior ainda, encontrasse, mas o novo ocupante do
castelo desejasse convertê-lo em uma atração turística?
Ante tais pensamentos, MacDougall
estremeceu, visualizando milhares de crianças barulhentas e mal-educadas com
seus pais gordos e relaxados, subindo e descendo suas escadas e passando as
mãos engorduradas nos objetos preciosos que levara uma vida inteira para
adquirir, e que tinham lhe custado a própria alma.
Desejou que o mais recente
herdeiro que partira, e que não se casara nem deixara descendentes, ardesse no
inferno. Assim pensando, tratou de abrir as janelas góticas, e ouviu o som de
um motor e o rumo das águas. Soube então que se tratava da lancha de
Silverstein. Duncan esticou o pescoço para ver melhor o ancoradouro, e
praguejou ao divisar uma mulher, os cabelos escuros ao vento, sentada ao lado
de Tom.
Deus presenteara o
testamenteiro com o amor de uma esposa e a dádiva de um filho. Algo que ele, um
lorde, não era digno de ter, pois fora amaldiçoado para nunca ser amado, e
tinha as mãos manchadas com o sangue de três esposas.
Porém, ali estava o
paspalho do Tom com a esposa grávida!
– Deus! – exclamou Duncan
– no seu estado deveria estar deitada, e não balançando como rolha na baía!
Pode fazer mal à criança!
Assim dizendo, o lorde
desceu as escadarias, apavorado com essa possibilidade, e correu pelo enorme
vestíbulo, determinado a confrontar Tom Silverstein frente a frente.
Em geral preferia métodos
mais sutis... ou mesmo agressivos... para demonstrar seu desagrado, em vez de
materializar-se diante de mortais. Tornar-se visível sempre requeria mais
esforço do que dar sinais de que se ofendera com alguma coisa. E dar vazão ao
seu gênio era bem mais divertido também.
Mas o menino Tommy dessa vez exagerara,
pensou. Arriscar a vida do filho que estava para nascer era ofender a Deus e
pôr Blackstone em perigo. Por suas faltas, o testamenteiro iria pagar caro,
refletiu lorde MacDougall.

2 - FEITIÇO DO CORAÇÃO
Um homem enfeitiçado...
Para ganhar uma aposta, e as chaves do castelo de seu senhor feudal, Angus MacDougall precisa encontrar uma noiva dentro de três meses.
O destino põe no caminho do poderoso guerreiro a graciosa Birdalane Shame, uma jovem linda e tímida que muitos acreditam ser dotada de poderes mágicos. Birdalane deixa o lugar onde sempre viveu para acompanhar Angus às montanhas e vales da Escócia. É uma jornada difícil, e a única pessoa com quem ela pode contar é o homem que, embora seja seu marido, é um completo estranho.
No entanto, a intuição desenvolvida de Birdalane lhe permite enxergar o mais íntimo do coração de Angus, e também antever o longo e incrível caminho que percorrerão juntos...
Capítulo Um
Loch Ard Forest, Escócia, Setembro de 1410
Angus MacDougall,
montado em seu cavalo de batalha, baixou a cabeça, porém não rápido o
bastante. O galho espesso de um pinheiro atingiu-o na nuca e ele praguejou,
esfregando o vergão.
— Se não me
arrumarem uma esposa no castelo de Beal, juro que roubo a primeira mulher que
cruzar meu caminho!
Mas não podia.
Tinha prometido voltar com uma donzela. Uma castelã.
E o pior: não
desejava se casar. Jamais quisera uma esposa. Gostava de usufruir o prazer
quando a oportunidade se apresentava; depois, dispensava a moça com um beijo e
voltava para casa.
Então, por que
ficara se vangloriando, dizendo que poderia tomar qualquer jovem por esposa em
menos de três meses?
— Está brincando —
argumentara seu senhor e melhor amigo, Duncan MacDougall. — Aposto que não consegue
uma mulher antes do final de outubro, no solstício do samhain. Se conseguir,
entrego-lhe as chaves de Donaliegh. Se falhar, fica seis meses sem pagamento.
Feito?
O coração de Angus
dera um salto.
— Permitiria que eu
fosse o senhor de Donaliegh? — Antes propriedade dos Stewart, Donaliegh não
tinha dono havia anos; não depois da morte de Dumont. Estava completamente
abandonada. Mas se fosse seu proprietário, um senhor feudal... — Albany aprova
a ideia?
Com o jovem rei
preso na Torre de Londres, o tio do rapaz, o Duque de Albany, agora tinha o
domínio de tudo.
— Sim, aprova. Mas
sua esposa deve ser bem disposta e hábil o bastante para assumir
responsabilidades.
Angus sorrira. Três
longos meses para encontrar uma dama de valor lhe pareceram um prazo razoável.
Passados dois
meses, porém, e novamente em território inimigo, pois não havia como ir de
leste a oeste sem invadir as terras de algum clã rival, encontrava-se tão longe
de seu objetivo como quando deixara o castelo de Blackstone.
Bufou, irritado.
Não era um gigante de quase um metro e noventa? Não tinha músculos dos pés à
cabeça, bons dentes e fartos cabelos? Não era um cavaleiro nobre e habilidoso,
braço direito e confidente de seu senhor? O que havia nele para não ser
apreciado?
Por outro lado, era
conhecido como Angus, o Terrível; supostamente um homem sanguinário. Ficava
doente só de pensar que, ainda que falsa, sua reputação cultivada com tanto
cuidado poderia agora fazê-lo perder Donaliegh e lhe custar seis meses de
pagamento.
Estava viajando havia
semanas de castelo em castelo, pela Escócia, e as únicas mulheres que lhe
haviam oferecido tinham se mostrado horrorizadas ou insultadas com sua
presença.
Outro galho surgiu
de repente, dessa vez arranhando-o na face. Praguejando, Angus, desmontou e guiou
Rampante, o garanhão, em direção a um atalho visível à luz da lua. Com sorte,
levaria a algum lago em meio à densa floresta.
Abriu caminho entre
a folhagem cerrada e encontrou uma ravina escura e vazia, onde havia uma
lagoa. Soltou a barrigueira do cavalo.
— Vá comer. — Deu
um tapa no flanco do animal. Enquanto Rampante trotava para a forragem, Angus
agachou-se sob uma árvore, abriu a bolsa de couro que trazia presa ao kilt e
retirou os restos de queijo endurecido e bolo de aveia que comprara em Kelso.
Terminada
a refeição, recostou-se contra o tronco de um pinheiro e ponderou sobre o dia
seguinte. Ainda lhe restava uma carta de apresentação.
3 - LADRÃO DE CORAÇÕES
Escócia e Inglaterra, 1411
Infame... Sedutor...
Ian MacKay merece ser chamado de Ladrão de Corações.
No entanto, ele é um homem com uma missão: reaver para o rei da Escócia o trono ancestral que lhe pertence por direito.
Antes, porém, ele precisa descobrir a verdadeira identidade da mulher misteriosa cuja beleza e presença de espírito deslumbraram a corte... e por que ela o está evitando.
Será possível que Kate Templeton seja uma espiã Inglesa?
Embora Ian insista que nunca uma mulher o rejeitou, Kate jura resistir a seu charme.
Fugir e obrigá-lo a persegui-la por toda a Escócia é a melhor maneira de proteger seu coração. Mas um apaixonado confronto acaba por aproximá-los, e a única palavra que resta a Kate dizer é "sim"...
Capítulo Um
Final
de Primavera, 1411, Castelo Stirling
Homens e mulheres se curvavam diante de
Ian MacKay no salão de recepções do castelo. O ambiente recendia a incenso e
fumaça. Tochas suspensas nas paredes de pedra produziam um jogo de luz e
sombras que faziam os visitantes parecerem fantasmas conforme se moviam. De
maneira geral, todos representavam um desafio pelo poder que detinham de
transformar a Escócia em um campo de guerra. Antes, porém, teriam de passar
sobre o cadáver dele! Os olhos de Ian pousaram sobre os chefes dos clãs em
atenta verificação, embora não se detivessem em nenhum deles em especial. Todo
cuidado era pouco. Qualquer gesto que pudesse ser interpretado como uma
preferência, certamente, provocaria comentários e inveja entre os clãs rivais.
Ian MacKay representava, afinal, os olhos e os ouvidos do regente. Em outras palavras,
era um espião de Albany, função que detestava, mas que lutava por conservar
pela esperança de colaborar algum dia, de alguma forma, para que o rei de
direito subisse ao trono, e que as terras de sua família nas Terras Altas, ao
noroeste do país, fossem preservadas.
Em meio à pequena multidão, Ian notou
que membros do clã Sutherland olhavam para seus rivais, Saint Clair, com ares
de provocação. Ele franziu o cenho ao constatar que um dos guerreiros abria
caminho com os ombros para chegar ao clã dos Campbell.
— O que isso lhe parece? — perguntou a
Shamus, seu irmão caçula, embora parecessem gêmeos pela altura idêntica e pela
cor dos cabelos.
— Os Campbell se desentenderam novamente
com os Stewart. Um mau sinal agora que os Stewart se aliaram aos poderosos
Douglas.
— Por outro lado — lembrou Ian —, os
Campbell também contam com importantes aliados. Duncan MacDougall de Drasmoor,
para citar apenas um.
Temido senhor feudal, o dono do Castelo
Blackstone poderia mandar novecentos guerreiros treinados para o campo de
batalha num estalar de dedos. A entrada de Duncan MacDougall em uma guerra
representaria a derrota rápida de Angus de Donaleigh, o temperamental chefe do
clã Saint Clair. Porém, como o conde de Sutherland odiava Douglas, seu exército
também seguiria para a disputa.
Ian esperava que Deus os ajudasse. Pois
enquanto os escoceses estavam na iminência de se destruírem, os ingleses
assistiam as investidas de braços cruzados e se regozijavam com a antecipação
de sua vitória.
— Shamus, você terá de me desculpar por
interromper nossa conversa. — Ian se levantou, determinado a falar com os
Campbell. — Eu não posso ficar parado enquanto a situação escapa ao controle
por causa de um simples equívoco.
— Não, não pode — o irmão concordou. —
Orgulho, inveja e avareza, são os verdadeiros motivos que levam os homens a se
perderem.
— É o que diz o autor no livro Inferno —
Ian declarou com um sorriso.
— Como você conseguiu terminar de ler
mais um livro com tanta presteza? — Shamus perguntou, surpreso.
— Tive tempo de sobra durante a viagem
de volta da França. E você me deve setecentas libras. Não esqueça. Aposta é
aposta.
Shamus meneou a cabeça.
— Qualquer dia desses, você acabará me
sobrepujando em número de leituras. E eu não sei se encaro essa possibilidade
com bons olhos. Eu gosto de pensar que consegui me destacar ao menos nessa
atividade intelectual.
Ian fez um sinal de incerteza. A
brincadeira já durava dez anos. Ele realmente não podia competir com o irmão no
exercício da leitura. Era sua memória prodigiosa que o levava a repetir trechos
dos livros, como se os tivesse decorado intencionalmente. De qualquer forma, a
disputa era salutar. Era de vital importância que o irmão caçula estivesse
preparado para assumir o controle de Seabhagnead, o castelo da família desde
antigas gerações, no caso de sua morte, que poderia acontecer a qualquer
momento com a vida que ele levava.
Determinado a trocar algumas palavras
com os representantes do clã dos Campbell, Ian começou a andar enquanto ainda
terminava de falar com Shamus. O súbito encontrão com lady Mary McKinnon foi
tão violento que ele a teria lançado ao chão, caso seu instinto não o tivesse
feito segurá-la pelos braços.
— Mil perdões, milady.

