Joanna havia se acomodado na janela ao entrar na pequena sala amarela. Este era um dos seus cômodos favoritos em Crampton Manor, uma charmosa casa geminada localizada em Mayfair. Ela morou ali a vida toda e conhecia cada cantinho.
Este era o seu assento favorito, devido ao acolchoamento perfeito da almofada, à maciez das cortinas em suas costas e à excelente luz do sol que entrava pela janela, proporcionando-lhe a luz necessária para bordar. Embora não fosse algo pelo qual fosse apaixonada, ela estava determinada a fazer um lindo colete para o pai até o final do ano.
—Ah, aí está você.
Ela endireitou as costas imediatamente ao som da voz da madrasta. Qualquer pensamento de uma tarde alegre se evaporou com apenas algumas palavras curtas.
Beatrice Highler Crampton, com quase quarenta anos e a atual Condessa de Ely, exibia seu porte imponente. Seu cabelo loiro-claro estava penteado em cachos presos em espiral que apareciam sob a touca, e seus olhos azul-escuros percorriam a sala. Olhos que pousaram na outra jovem mulher na sala.
Joanna se encostou na parede enquanto sua meia-irmã, Madeline, se endireitava. Madeline tinha vinte anos, assim como ela, cabelos loiro-claros e lábios trêmulos.
—Mãe. — Madeline lançou um olhar para Joanna, como se pedisse ajuda, antes de forçar um sorriso. —Estou aqui a manhã toda, juro.
Ela não estava lá, mas Joanna não ia dizer nada. Provavelmente, Madeline estava lá embaixo, nos estábulos. Ultimamente, só criavam cavalos de carruagem, mas Madeline gostava muito de animais. Mesmo agora, havia um gato branco e fofinho chamado Sampson sentado em seu colo.
—Muito bem. Está na hora de você se dedicar à costura, porque precisamos terminar de preparar o seu enxoval.
Ah, que droga. O que a Beatrice tem em mente desta vez? A pobre Madeline franziu a testa, confusa.
—Preciso?
Sua mãe bufou, o que era o hábito mais impróprio para uma dama. Fora isso, ela mantinha a coluna ereta, o queixo erguido e a expressão diabólica de sempre. Seu vestido estava na cor da estação, que acabara de começar. Mas o laranja quente só a desbotou. Terrível. Mas nenhuma palavra foi dita. Joanna mordeu a língua e não disse nada, esperando ser ignorada durante toda a conversa.
—Você não ouviu? — Beatrice franziu os lábios de um jeito que só poderia ser descrito como ruidosa, antes de largar um jornal no colo da filha com grande desenvoltura. Ela esperou apenas um instante para que Madeline procurasse o que lhe chamara a atenção antes de apontar o dedo.
—Madeline, leia mais rápido. Não vê? Temos um novo duque na cidade. Não temos novos duques e novos títulos. Muito provavelmente, será um duque idoso que finalmente recebeu o título agora que seu pai, tio ou avô faleceu. Poucos herdariam um título tão jovem. Não que isso importe. Um título não necessariamente torna alguém interessante.
Mesmo enquanto Joanna se deixava levar por suas reflexões, ela não conseguia deixar de ouvir o discurso apaixonado de sua madrasta.
—O novo Duque de Henley está solteiro, Madeline. Você me entende? O homem precisa urgentemente de uma esposa. Aliás, já há rumores de que ele se casará antes do fim da temporada. Lady Lisabeth acredita que ele poderá ter alguém até o ano novo. E nós garantiremos isso.
—Eu..., mas como podemos ter certeza de que ele quer se casar? —perguntou Madeline, arregalando os olhos cada vez que a mãe gesticulava com as mãos. —Não é ele quem perdeu o pai e o irmão recentemente? Mãe, ele pode ainda estar de luto.
Beatrice acenou com a mão no ar, leviana. Ainda era gracioso e contido para qualquer observador, mas parecia positivamente indecente vindo dela. Joanna a encarou, surpresa, e se assustou quando ela furou o dedo. Chupando-o, observou a madrasta falar monotonamente.
—Sim, sim, tenho certeza de que ele seguirá as convenções. Como se fôssemos deixá-lo fazer qualquer outra coisa, mas tenho informações de fonte confiável de que está determinado a se casar muito em breve. É um dos motivos pelos quais ele está em Londres, tenho certeza.
Como se um lorde não fosse requisitado pelo Parlamento. Pelo menos seu pai se importa com seus deveres, enquanto a atividade parlamentar parece ser mais um hobby para todos os outros. Incapaz de se conter, Joanna perguntou: —Que tipo de fonte poderia ser tão confiável?
—Seu pai, na verdade. — Beatrice lançou lhe um olhar irritado, tão frio que Joanna quase babou em si mesma. Ela tirou o dedo da boca e verificou se não havia sangue. Quando olhou de volta, sua madrasta já havia se virado. Provavelmente, estava determinada a ignorá-la o máximo possível.
O que acontecia praticamente na maior parte do tempo.
Ela tinha apenas cinco anos na manhã em que sua mãe saiu para seu passeio habitual e não retornou. Embora se constatasse que seu coração não havia parado de bater, seu pai nunca mais conseguiu andar a cavalo. E Joanna nunca aprendeu. Algumas lembranças vagas de sua mãe viviam em sua mente, mas, acima de tudo, ela se lembrava dos anos de sofrimento que deixaram sua casa tão silenciosa.
Quatro anos antes, Beatrice ficara viúva e na miséria quando um primo distante assumiu o título de baronete. Ela se mudara para Londres, onde Joanna e seu pai residiam o ano todo, e no dia seguinte ao seu ano de luto, o Conde de Ely casou com ela.
Tinha sido uma manhã nublada. Joanna se lembrava de ter encontrado a mulher educada uma ou duas vezes antes do casamento, ao qual não comparecera. Ela estava sentada em uma casa de chá com Madeline. A jovem, da sua idade e que em breve seria sua irmã, mordiscava sua comida em silêncio enquanto Joanna tagarelava. Duas governantas lhes faziam companhia enquanto cuidavam de seus bolos.
Foi muito estranho.
Com o tempo, Joanna conseguiu abandonar a esperança que nutria no início da união. Parou de esperar amor ou mesmo atenção de Beatrice e passou a trocar gentilezas com Madeline, que podia parecer um raio de esperança, mas era quieta e tímida demais para brilhar.
—Vamos comprar vestidos novos para você. Já marquei um horário com Madame Constantine, já que Madame Isla já está reservada para toda a temporada. — sibilou Beatrice, irritada. Ela endireitou os ombros. —Vamos descobrir quais eventos ele participará e encontrar uma maneira de nos apresentarmos. Ele não parece ser exigente em relação à esposa, mas estou determinada a garantir que ele escolha você, e somente você.