28 de setembro de 2014

Amor Renegado

Série MacLerie
O primo de Robert Matheson sequestrou Lilidh MacLerie a fim de torná-la sua refém e assim usá-la como moeda de troca. 

Mas a mulher que já fora dona do coração de Rob estava longe de ser uma prisioneira qualquer... ainda que ele tivesse sido obrigado a renegá-la. 
Com o toque de Rob ainda vivido em suas lembranças, e alheia ao fato de que não fora escolha dele rejeitá-la, Lilidh jamais pudera esquecer o homem que lhe mostrara face dura do amor.
Agora, frente a frente com seu algoz, para Lilidh aquele temível líder não passa de um estranho. 
No entanto, algo em Rob a excita na mesma medida em que a aflige.

Capítulo Um

Lilidh Maclerie, filha mais velha do laird MacLerie e conde de Douran, olhou para fora de sua janela e tentou analisar suas opções. Esse horário silencioso entre o fim do dia e o começo da noite era o seu favorito, quando ela precisava tomar decisões e fazer escolhas. 
Lembrar agora que tomara a decisão que a levara para esse tempo e lugar a fez refletir. Talvez devesse esperar até de manhã, em vez disso.
Virando-se da janela e olhando ao redor da câmara grande e bem mobiliada, soube que tinha pouco tempo ou opção… novamente. O pergaminho permanecia onde ela deixara, e Lilidh ergueu-o, inclinando-o, de modo que a luz de diversas velas possibilitasse a leitura. Pelo que parecia a centésima vez, falou as palavras e não conseguiu decidir o que mais escrever, quando tão mais era necessário.
Para o conde e a condessa de Douran, começava a carta, usando os títulos formais deles, primeiro. Pai e mãe, em seguida.
E então, as palavras desapareciam.
Como Lilidh poderia explicar o sofrimento particular por trás da morte muito pública de seu marido, apenas dois meses atrás? A morte de MacGregor fora mantida em segredo, até que o herdeiro dele, o irmão mais novo, fosse aprovado, pelos mais velhos do clã, como chefe. 
O propósito de Lilidh com o casamento — unir ambos os clãs e produzir um herdeiro para os MacGregors — fracassara. Todavia, mesmo como uma jovem inocente entrando naquele matrimônio, ela entendia que as coisas não eram o que deveriam ter sido entre ela e Iain MacGregor.
O pergaminho em sua mão moveu-se na corrente de ar quente, criada pelo calor das velas, e relembrou-a que essa tarefa também não estava terminada. 
Sentando-se à mesa, ergueu a pena, bateu-a de leve no tinteiro, de modo que não respingasse, e escreveu as palavras que tanto a embaraçariam quanto a humilhariam aos olhos de seus pais e do clã.
Eu me encontro precisando de seu conselho em relação à situação de minha posição aqui na casa de Iain MacGregor, com a família dele. Como sua viúva, embora sem esperança de produzir um herdeiro, eu sei…
O que ela sabia? Casara-se com ele sob um contrato negociado por seu tio e assinado por seu pai. Sua parte do dote de noiva estava protegida para seu uso, e ela tivera a escolha de permanecer ali, como parte do clã de seu marido, ou retornar para seu próprio clã. 
Seu tio se certificara de protegê-la no contrato, mas dar-lhe tal opção tornava as coisas mais difíceis do que se ela tivesse simplesmente recebido ordens do que fazer.
Se Lilidh permanecesse, haveria outro casamento arranjado para ela, com um homem elegível, a fim de manter os elos fortes entre os clãs. Se voltasse para casa, outro enlace se daria, mas ela também enfrentaria o desapontamento de sua família por seu fracasso. E sem ter como explicar, e sem ter com quem falar sinceramente sobre aquilo, o que poderia dizer?
Lilidh mergulhou a pena na tinta fresca e posicionou sua ponta sobre o pergaminho.
Estava sendo tola. Seus pais a amavam e a aceitariam de volta, com ou sem explicação. Sua mãe era a única com quem Lilidh podia conversar sobre assuntos pessoais. Como fizera antes de seu casamento, mesmo se aquela conversa não explicasse o que tinha acontecido, ou, mais precisamente, o que não tinha acontecido entre marido e esposa.
Olhando para a chama da vela, ela repirou fundo e exalou, e fez a única coisa sensata que poderia: pediu permissão para voltar para casa.
Encontro poucos motivos para permanecer aqui, e peço a permissão de vocês para retornar a Lairig Dubh assim que uma escolta puder ser arranjada. Eu lhes pediria conselho em outros assuntos importantes, mas hesito em colocá-los nesta carta.
Pai, por favor, envie uma resposta, dizendo se isso é de seu gosto.
Mãe, por favor, mantenha-me em suas orações, e peça ao Todo-Poderoso para olhar por mim durante este período de teste.
A carta era curta, mas direta, e não havia muito mais a dizer. Lilidh esperou que a tinta secasse, e então enrolou a carta, selando-a com o anel que seu pai lhe dera no seu aniversário, um ano antes. 
Ela a enviaria no dia seguinte, por um dos servos dos MacLeries que a acompanhara para lá. Esperava em breve ter uma resposta de seus pais, e então saberia o que o futuro lhe reservava.
Mas como podia explicar que, embora fosse noiva e viúva, nunca havia sido esposa?

24 de setembro de 2014

Amor vem a Mim







A elite de Concord está a ponto de admitir um novo membro: a jovem Lucinda Caldwell, uma bela moça mimada em excesso por seu pai.

Parece ter tudo muito claro na vida: casará-se com seu amor de infância, o homem destinado a convertê-la em uma brilhante organizadora de encontros sociais.
Mas não é esse o destino que a espera, a não ser acabar nos braços de um cavalheiro sulino, Heath Rayne, que, desde que a viu, não pôde deixar de pensar nela e de desejar que seu noivado terminasse.
E agora que Lucinda é dele, a única coisa que deseja é dedicar-se a ela por completo. Entretanto, o passado de Heath impedirá que as coisas sejam tão fáceis...

Capítulo Um

Heath levantou as lapelas de seu casaco e amaldiçoou entre dentes ao sentir o vento gelado no pescoço. Era seu primeiro inverno na Nova Inglaterra, e estava começando a compreender que não era o lugar mais adequado para alguém do Sul.
Pisou com suas botas as endurecidas camadas de neve que tinham ido acumulando-se depois das recentes tormentas.
Tinha nevado tanto, tinha esfriado tantas vezes, que temia que toda aquela neve não desaparecesse por completo até o mês de junho.
Apesar de ir vestido com pesadas roupas de lã, como um autêntico nortista, qualquer um poderia haver-se dado conta de que não levava muito tempo ali. ~
Sua pele era escura, com o permanente bronzeado próprio de alguém acostumado ao calor e ao sol do Sul. Media mais de um metro e oitenta, estatura que não destacava especialmente em Kentucky ou Virginia. Mas era muito mais alto que os magros e compactos homens da Nova Inglaterra, e, além disso, olhava fixamente com seus olhos azuis, o qual parecia incomodá-los. 
Em sua terra os estranhos se saudavam ao cruzar-se pela rua; no Norte, parecia que não se tinha o direito de olhar alguém nos olhos se não fosse de sua família, velho amigo ou compartilhava com ele algum negócio. Perguntou-se por que as pessoas de Massachusetts não se davam conta de quão estranhas eram. 
Não havia explicação alguma para sua frieza e sua rigidez, nem para aquele condenado senso de humor de que faziam ornamento. Talvez fosse coisas do clima.
Seus pensamentos lhe fizeram sorrir —um cálido e brilhante sorriso que, tempos atrás, tinha cativado às mulheres do condado de Henrico—, e apertou a mão, coberta com uma luva, ao redor da tocha enquanto ia em busca de lenha. 
Estava acostumado a esgotar com rapidez a madeira e o carvão em seu empenho por manter aquecida a pequena casa que tinha comprado à primavera anterior. Fazia tanto frio fora que lhe resultava difícil assobiar, mas mesmo assim se entreteve interpretando uma aceitável versão de “All Quiet along the Potomac Tonight”, uma das melodias mais populares durante a guerra. 
Tinha-a composto um nortista, mas uma boa canção era uma boa canção fosse quem fosse seu autor.
Seus passos diminuiram e seu assobio se esfumou quando lhe pareceu escutar um tênue ruído proveniente do rio. 
Vivia um pouco acima da beira, assim que o tranquilo som chegou até ele flutuando, levado pela brisa, dispersando-o entre as árvores e fazendo que resultasse difícil escutá-lo com claridade. Mas quase podia assegurar que se tratava da voz de uma mulher.
Não podia morrer, não desse modo, nesse lugar. Ter atravessado o rio gelado por esse ponto em vez de caminhar os trezentos metros que faltavam até a ponte tinha sido uma completa estupidez, mas ela não merecia algo assim; de fato, ninguém o merecia. 
Depois do sobressalto inicial de ver-se atravessar a superfície e cair na água, Lucy tinha lutado violentamente com os pedaços de gelo que flutuavam a seu redor, incapaz de encontrar um ponto de apoio até que suas mãos deram com um dos extremos do buraco em que havia caído. 
Nesses escassos cinco segundos, a água tinha impregnado em suas roupas e o frio lhe chegava até os ossos. Tudo tinha acontecido com grande rapidez, em um abrir e fechar de olhos. 
O ar lhe saía do mais profundo de seus pulmões enquanto se esforçava por sair da água, mas suas luvas de cachemira escorregavam sobre o gelo uma e outra vez. Cada vez que uma de suas tentativas fracassava, afundava-se até o queixo.
—Que alguém me ajude! So... socorro! —Falhou-lhe a voz ao olhar para a paisagem nevada que se estendia além da costa, cercada pela neblina de fumaça que saíam das chaminés das casas próximas. Gritar não ia adiantar, e, além disso, a fazia perder forças, mas seguiu fazendo-o, intercalando palavras e soluços—. Estou em... a água... que alguém... ajude-me...



21 de setembro de 2014

Virtude

Série V
Judith e Sebastian Davenport são jogadores profissionais. 

Os atrativos de Judith distraem os competidores enquanto seu irmão realiza jogadas suspeitas. 
Seu verdadeiro sobrenome é Devereux, mas ocultam sua identidade com a esperança de achar o homem que traiu seu pai.
Mas sua sorte muda quando suas manobras no jogo são descobertas por Marcus Devlin, o bonito e temível marquês de Carrington, que lhes exige que mudem sua rotina e ameaça delatá-los. A beleza de Judith o atrai sem remédio, apesar de tratar-se de uma aventureira...
Uma história de paixão e intriga que transcorre no final da guerra contra Napoleão e nos elegantes salões de Londres, pela autora de Beijar Um Espião.

Capítulo Um

Que diabos estaria fazendo ela? Distraído, pensou Marcus Devlin. O muito honorável marquês do Carrington trocou sua taça vazia de champanhe por outra cheia, que tirou da bandeja de um lacaio que passava. 
Afastou seus ombros da parede e se ergueu em toda sua altura para ver melhor o outro lado do abarrotado salão, ali onde estava a mesa de macao. Ela tramava algo. Ele sentia em cada um dos cabelos da nuca, completamente arrepiados.
Ela estava em pé, atrás da cadeira de Charlie, movendo o leque em lentos balanços frente à parte inferior de seu rosto. Inclinou-se para frente sussurrando algo no ouvido de Charlie, a suntuosa curva de seus seios e a funda sombra da fenda entre eles se revelou no decote de seu vestido de noite. 
Charlie a olhou e lhe sorriu com o suave sorriso tolo do primeiro amor juvenil. Não era de estranhar que seu jovem primo tivesse caído rendido aos pés da senhorita Judith Davenport, refletiu o marquês. 
Quase não havia homem em Bruxelas que não se sentisse excitado por ela: criatura de contrastes, vibrante, transbordante, de aguda inteligência... Mulher que de um modo indefinível representava um desafio para um homem, que em um instante colocava a prova o valor de um homem e no seguinte era mansa como uma gatinha, que provocava em um homem desejos de levantá-la em seus braços e embalá-la, protegê-la da tormenta...
Bobagens românticas! O marquês reprovou a si mesmo duramente por se parecer com seu primo e com a metade dos jovens soldados que passeavam orgulhosos em seus uniformes pelos salões de Bruxelas, enquanto o mundo esperava que Napoleão fizesse seu seguinte movimento.
Fazia já várias semanas que observava como Judith Davenport tecia seus feitiços, estava convencido de que a moça seguia com toda clareza um protocolo específico. Entretanto, não conseguia descobrir do que se tratava.
Pousou o olhar sobre o jovem que estava sentado em frente de Charlie. Sebastian Davenport tinha a banca. Belo como a irmã, a sua maneira, estava sentado descuidadamente na cadeira, tanto em sua forma de vestir como em sua postura, irradiava uma estudada indiferença. 
Do outro lado da mesa, ria ao mesmo tempo em que embaralhava as cartas.
O ânimo que reinava nessa mesa era descontraído, o que sempre acompanhava aos Davenport. Era de supor que esse era um dos motivos da popularidade de ambos... 

Série V
1 - Venus
2 - Virtude
3 - A Indomável
4 - Velvet
5 - Valentine
6 - Violet
7 - Vanity
8 - Vice

14 de setembro de 2014

Amor Pagão


A longa capa negra e a máscara evocavam mais perigo que a arma que o salteador trazia nas mãos. 

Sobressaltada, Honor viu-o aproximar-se, os olhos fitando-a com uma intensidade que a desconcertou. "Perdoe-me, milady, mas preciso de suas joias e dinheiro.
" De nada adiantaram os protestos. 
Honor foi roubada de tudo que restara de sua fortuna e que pretendera transferir para Londres.
Ela quis agredi-lo, desafiar tanta ousadia; porém, antes de partir com seus comparsas, o mascarado ainda a tomou nos braços e a beijou, saboreando os lábios de Honor como a uma exótica iguaria.
"Não vou perdê-la de vista", prometeu à estarrecida Honor Dale, sem saber que acabara de atacar a sobrinha de Oliver Cromwell, o líder puritano da Inglaterra!

Capítulo Um

Honor Dale fitou a mão direita, reticente. Pouco discreta, a pérola do anel de noivado destacava-se sob a luva de pelica. Talvez não devesse estar usando a joia. Escondê-la junto às outras na capa, porém, podia parecer uma afronta a sir Tyler Vail.
Lamentavelmente, seu noivo não aguardaria a carruagem vinda de Oxford, ocupado demais que estava com seus investimentos na Bolsa Real. Ainda assim, meditou Honor, não seria direito chegar a Londres para o casamento sem o anel.
Erguendo o olhar sob os cílios longos e dourados, percebeu que o casal sentado no banco oposto examinava-lhe a mão com indisfarçada curiosidade. Ao lado dela, no assento pouco confortável, um homem rude e corpulento, conhecido como dr. Kennel de Kenilworth, chacoalhava de um lado para o outro, como um barco na tempestade.
— Quem ousou chamar essas carroças de "coches voadores" certamente jamais pisou em uma delas! — resmungou o médico, caindo primeiro de encontro a Honor, depois contra a parede do barulhento veículo.
— Não guarda mesmo nenhuma semelhança com uma criatura alada... — observou com afetação a mulher de cabelos grisalhos presos com rigor sob um chapéu.
Honor concordou mentalmente, embora não fizesse nenhum comentário. Esforçando-se para ignorar a trilha acidentada, concentrou-se na paisagem composta de cerrados e faias. O coche gemeu ao contornar uma curva e, projetando-se para a frente, ela buscou equilíbrio. Ao tomar a carruagem, em Oxford, haviam-lhe dito que se podia cumprir a jornada em pouco tempo. Já era quase meio-dia, contudo, e encontravam-se bem a umas vinte milhas da parada, em High Wycombe.
À frente, a parelha mal entrosada de seis animais tentou vencer uma ponte estreita de pedra. O cocheiro instigou-a a prosseguir com um estalar fraco do chicote, fazendo meia dúzia de corvos alçarem voo de uma sebe que margeava a estrada.
Cinco horas de viagem, calculou Honor, tentando se acomodar melhor ao lado do médico obeso que resfolegava a cada tomada de ar. Naquele ritmo, não alcançariam Londres antes da hora da ceia. Deveria ela seguir direto para a residência de tio Oliver, em Whitehall? Os Cromwell, pelo menos, deviam estar a sua espera.
Ansiosa, manuseou as fitas negras do vestido de luto, aproveitando para tatear a capa e certificar-se de que as joias permaneciam em segurança. Reencontrar o tio não era nenhum acontecimento. Sua posição e título nobres de Lorde Protetor da Inglaterra jamais a haviam intimidado. Mesmo quando criança, o considerava afetuoso e de um surpreendente e travesso senso de humor.
A carruagem sacudiu mais do que nunca, percorrendo a estrada que serpenteava por Chiltern Hills. O casal empertigado, sr. e sra. Cosgrove, já sustentava uma expressão de alarme.
— Eu disse! — queixou-se o sr. Cosgrove, enquanto o veículo lutava com uma vala particularmente profunda. — Teria sido mais sensato viajar a cavalo.
— Não a meu ver, meu caro — o dr. Kennel observou, irônico, quase como se divertindo com o desconforto do companheiro. — Prefiro não ficar à mercê dos elementos. Era só o que me faltava, atender aos chamados de meus pacientes acometidos de crupe...
Honor percorreu o corpanzil do médico com os olhos castanhos, indagando-se se ele já não desistira de tentar encontrar uma montaria forte o bastante para carregá-lo de Oxford a Londres. Ela mesma não atinava com o motivo pelo qual resolvera viajar de carruagem. Na ocasião, os preparativos tinham sido feitos tão às pressas... O pobre camareiro de tia Lucy mal pudera acreditar quando lhe revelara a intenção de explorar a cavalo os campos ingleses.
— Uma jovem de dezenove anos? E de luto? O que não diria lady Lucy? — perguntara Master Ormsby, escndalizado.
Na verdade, não diria nada, já que a pobre estava morta havia mais de um mês. De qualquer forma, refletiu Honor, não tinha a menor intenção de desdenhar a memória da tia. Por mais inconsequente e aborrecido que fosse o apego de Lucy Dale Ashford a detalhes e convenções sociais, ela fora para Honor uma verdadeira mãe naqueles últimos dez anos.
Um solavanco devolveu Honor ao presente. O coche inclinou para um lado, arremessando-a para cima do médico obeso. Vexada, ela lutou para endireitar o corpo, consciente do prazer estampado nas feições de Kennel.
— Eh-eh... — ofegou ele, deliciando-se com o contato do corpo jovem contra o seu. — Parece que viajar de carruagem tem lá suas vantagens.
Honor apoiou o pé na parede do carro, buscando equilíbrio e recompondo-se com dificuldade. No outro assento, os Cosgrove faziam o possível para se desembaraçar um do outro com o mínimo de dignidade.
— Com mil demônios! — praguejou o sr. Cosgrove, olhando por cima dos ombros da esposa. — Creio que perdemos uma roda.
— Inferno! — exclamou o médico, espiando disfarçadamente os tornozelos de Honor, esperançoso, e reprimindo um muxoxo ao perceber que ela usava botas. — Assim não alcançamos Londres antes do anoitecer.
Honor.buscou conter a própria perturbação. Graças aos céus era julho e a tarde se estenderia por mais algumas horas. Pela primeira vez, desejou ter acatado o conselho de Master Ormsby e viajado acompanhada por Yetta Ward, a inexpressiva dama de companhia de tia Lucy. 
As incessantes trapalhadas da mulher, porém, somadas a sua resistência em admitir os próprios erros, irritavam-lhe. Após o casamento, ela poderia escolher à vontade, pois Tyler devia manter um verdadeiro exército de criados.
O cocheiro foi até a porta pedir aos passageiros que descessem do veículo para que ele e o lacaio pudessem recolocar a roda. Os resmungos soaram em uníssono, mas Honor manteve a compostura, preocupada apenas em verificar se o forro da capa continuava intato. Que Deus a livrasse de perder as joias, seu único dote, agora que seu irmão Palmer se apossara da herança destinada a ambos.
Herança que, de certa forma, não era nada se comparada às terríveis perdas sofridas pelos Dale na última guerra civil. Se tia Lucy não houvesse falecido tão subitamente, talvez pudesse ter refeito seu testamento em vez de deixar o solar de sua propriedade para as duas bem casadas filhas.
Pela centésima vez, desde a morte da tia, Honor abençoou sir Tyler Vail. Não somente por ter-se apaixonado por ela, mas também por sua delicadeza em adiantar o casamento em três meses. Era bem possível que as primas dela vendessem de imediato a confortável residência de tia Lucy em Whitehorse Hill, abandonando-a à própria sorte.
Afastando-se dos outros, Honor sentou-se à sombra de uma densa faia. A não ser por umas poucas folhas caídas, o solo não apresentava nenhuma vegetação rasteira. Segurando a borda do chapéu negro, olhou para cima, mal podendo avistar o céu azul por entre os galhos cheios. Apenas os grunhidos de esforço do lacaio e o tinir do eixo da roda rompiam o silêncio em Chiltern Hills.
Só então ela se deu conta do quão exausta e faminta se encontrava. A atribulada viagem de coche provara-se bem mais fatigante do que pudera imaginar.
Ajeitando-se melhor contra o tronco da árvore, fechou os olhos e procurou relaxar. Após alguns minutos, adormeceu. Sonhou que avistava sir Tyler Vail, com os cabelos loiro-acinzentados esvoaçando à brisa do verão e as feições nobres abertas num sorriso, à porta de sua elegante residência na praia. Estendia os braços para recebê-la e ela corria para ele.
De repente despertou, deparando-se não com sir Tyler, mas com um estranho usando uma capa e uma máscara.
— Tão linda donzela ocultando-se nas árvores?

11 de setembro de 2014

Um Cavalheiro Sempre é Discreto

Trilogia Romances à Luz da Lua
Há seis anos, Elizabeth Harewood e Lorde Roland Penhallow eram o casal de ouro de Londres, jovens, bonitos e loucamente apaixonados. 
Forçados a se separarem por seus parentes ardilosos e a carreira dele, Lilibet e Roland enterraram sua paixão sob o dever e a abnegação, até que um encontro casual numa remota pousada na Toscana muda tudo o que eles sabiam sobre si mesmos... E sobre os dois.
Mas Elizabeth Harewood é agora a Condessa de Somerton, ex-esposa de um dos aristocratas mais poderosos e brutais da Inglaterra,e não pode ter o menor indício de escândalo associado ao seu nome. Quando Roland aparece misteriosamente no castelo onde está se escondendo, ela tenta agir como uma dama, mas a tentação está apenas a um beijo de...

Capítulo Um

A cerca de cinquenta quilômetros a sudeste de Florença – Março de 1890.
O menino não podia ter mais do que cinco anos. Estava plantado diante da porta da pousada e olhava para lorde Penhallow com uma peculiar e hostil intensidade, o cenho franzido sobre seus olhos azuis e o polegar entre os dentes.
— Garotinho, —disse Roland com um suave pigarrear e um pé no degrau. — Posso passar?
O menino retirou o dedo da boca.
— Meu pai poderia dar uma surra em você.
Roland sentia a chuva fria que caia da copa de seu chapéu. Dali descia ao longo de sua nuca até a gola de seu casaco, encharcando sua camisa até que se colava a sua pele.
— Certamente, garoto, — disse, juntando as pontas da gola com uma mão. — Mas, eu gostaria de me secar junto a esse fogo que está bem atrás de você. Se não for incômodo, claro.
— Meu pai, —continuou o menino levantando o dedo e apontando para o nariz de Roland. — Poderia quebrar a sua cara, os braços e as pernas e você choraria muito.
Pronunciou a última palavra com satisfação.
Roland piscou. Atrás da pequena figura do menino estava o salão de refeições da pousada, suas longas mesas cheias de gente, com pratos de comida fumegantes e garrafas de vinho da região. Umfogo enorme, incrivelmente tentador, espantava o frio e úmido ar de março com seu crepitar.
— Claro que choraria, — concordou Roland. — Na verdade, amargamente. Sem dúvida, sem dúvida nenhuma. Mas sobre esse fogo...
—Philip! Aqui está!
Uma exausta voz feminina surgiu por trás de Roland, de algum lugar em meio aquele mal cheiroso e lamacento pátio interior que acabava de cruzar. Uma voz exausta, sim; triste e seca, com indícios de uma incipiente rouquidão, mas também uma voz muito familiar.
A coluna de Roland ficou rígida por causa da surpresa. Ali não, era impossível. Devia estar equivocado. Não no pátio de umapousada italiana rústica escondida em uma remota colina, a quilômetros do conforto civilizado de Florença e a um mundo do Conservatório londrinense onde havia ouvido aquela voz doce pela última vez.
Não, devia estar imaginando coisas.
—Philip, não estará importunando este pobre cavalheiro, não é? — A mulher falava com um tom rouco enquanto se aproximava rapidamente pela direita de Roland.
Santo Deus! Não podia estar imaginando. Ou sim?
—Senhor, peço-lhe que me perdoe. O menino está muito cansado e...
Roland se virou.
—Oh.
A dama parou imediatamente a três passos dele. A aba de seu chapéu escondia seu rosto quase completamente, mas os lábios e o queixo se arqueavam exatamente como em seus sonhos. Um lenço simples envolvia aquele pescoço que ele sabia ser longo e sinuoso, que se fundia com a delicada carne de seu peito e ombros, nesse momento, cobertos de forma prudente por um casaco de lã.
—Roland —sussurrou.
É claro que estava sonhando. Ela não podia ser real. Apenas um mero produto de sua imaginação; o esgotamento da viagem, que cobrava seu preço a suas faculdades mentais.

Trilogia Romances à Luz da Lua
1 - Uma Dama Nunca Mente
2 - Um Cavalheiro Sempre é Discreto
3 - Um Duque Nunca se Rende
Trilogia Concluída


7 de setembro de 2014

A Escolha de Rose







Três irmãos desejavam a mesma mulher... Porém, somente um deles a amava de verdade!

Rose China Grant chegou em Portsmouth, faltando somente duas semanas para seu casamento com sir Ranulf Cross. 
Logo na primeira noite, na casa que seria seu futuro lar, sua vida foi ameaçada...
À medida que os dias passavam, fragmentos de um antigo mistério e segredos de família começaram a se desenredar, mais rápido do que a capacidade de Rose de assimilá-los. 
E então ela se viu forçada a escolher entre cumprir uma promessa feita a seu pai, no leito de morte, e o impulso de seguir a voz de seu coração...

Capitulo Um

Sir Ranulf Fitzhenry Cross, membro da nobreza, doutor em medicina e cirurgião de renome, baixou a cabeça com determinação. Estava suando profusamente, uma condição que ele abominava. 
Seu belo rosto estava contraído, tamanha a concentração. Os músculos das pernas e braços doíam pela tensão imposta. Ele sabia que não conseguiria se segurar por muito tempo mais. Sentia-se tenso como uma única corda de um violino, quando todas as outras já se tinham rompido. 
Nunca havia se sentido tão impotente, dolorido, entregue e desesperado...
A mulher gemeu ao sentir as mãos grandes de Ranulf segurando suas nádegas, impulsionando-a a prender as pernas em volta da cintura dele. Ela começou a se mover rápido, usando as unhas como pequenas adagas para se apoiar nos ombros largos e galgar até o ápice do prazer.
Ranulf inclinou a cabeça para trás, exibindo as veias do pescoço dilatadas. O corpo másculo estava inteiro contraído, rendido à intensidade do êxtase. 
No desespero, entregou-se a uma busca desenfreada por ar, os olhos estáticos, vidrados em um caleidoscópio imaginário de cores que absorviam todos os seus sentidos, transformando-os em puro deleite. Nem sequer estava consciente da mulher presa a ele, que também hipnotizada pela preciosidade do momento, empenhava-se em sugar-lhe as últimas gotas de vida. Ah, Deus, e ela quase conseguiu.
Com a cabeça imersa entre os seios volumosos e com um grito vindo das profundezas da alma, Ranulf arremeteu-se para dentro do corpo feminino em um ritmo frenético, até não ouvir mais gemidos e senti-la relaxar em seus braços. 
Foi então que, com imensa gratidão, soltou-se das pernas que o prendiam e deslizou na investida final para também desfrutar o merecido clímax.
— Ah, isso foi perfeito — disse ela, espreguiçando-se sob os lençóis conforme a brisa lhe acariciava o corpo. — Podemos repetir daqui a alguns minutos? E permitirá então que Bessy mostre um truque que irá mantê-lo animado?
— Minha querida garota — Ranulf piscou, expulsando uma gota de suor da pálpebra—, acho que mesmo que eu tivesse mais algumas horas, eu não conseguiria repetir isso.
— Ah, mas você foi ótimo mesmo assim, por isso fiquei com ideias! — Bessy riu e se abanou. — Pode escrever o que digo, logo estará me chamando de volta.
Ranulf gemeu e deitou-se de bruços.
— Eu desejo você, rameira, mas lamento informar que sou humano.

Em busca da esposa Perfeita

Charlotte Wilcox, filha de um barão sem dinheiro, tem vivido com seu pai em uma pequena aldeia desde que sua mãe morreu quando era criança, e embora se sentisse feliz em sua casa e não se importasse com o fato de permanecer solteira aos vinte e três anos,

É pressionada por sua família para encontrar um marido que a sustente.
Para isso viaja para Bath, onde sua tia Margaret se encarrega de instruí-la para que consiga uma oferta adequada de casamento.
Para Charlotte, ás regras estritas que regem os membros da sociedade aristocrática parecem absurdas e ultrapassadas, temendo que nunca consiga chegar a ser a esposa perfeita que sua tia pretende e que todo cavalheiro deseja.
No primeiro baile que participa conhece Edward Holne, Visconde de Eversley e qualquer regra que sua tia seja capaz de ensiná-la, será inútil para a atração que surge entre eles.

Capítulo Um

Bath, condado de Somerset, Março de 1831
«...A esposa perfeita sempre tem presente que a felicidade do marido é a maior de suas preocupações embora para isso deva renunciar à sua própria. Esse consigo é suficiente para lhe proporcionar uma intensa sorte.
Nunca peça ao marido explicações a respeito de suas palavras ou ações, nem se queixe se ele chegar tarde ao lar. Tem presente que ele é o amo da casa e de sua pessoa.
Sempre deixe falar primeiro ao marido e lhe escute com atenção, pois qualquer tema de conversa que ele exponha é mais importante que os que você puder conceber. E, quando lhe permitir falar, faça-o em tom humilde e direto, sem estender-se em banalidades próprias de mulheres que acabam aborrecendo ou exasperando o marido.
Não lhe aflija com problemas domésticos ou sobre seus interesses e afeições, que são insignificante comparados com os dos homens...»
Charlotte fechou o livro e emitiu um buf1o de exasperação nada elegante. 
Quanto mais lia, mais absurdo lhe parecia seu conteúdo. Como era possível que tia Margaret defendesse tamanhos desatinos?
Tinha-lhe deixado o manual lhe recomendando que o lesse atentamente e assimilasse seus ensinamentos por tratar-se das principais normas de conduta que deveriam reger sua futura vida de casada. Mas ela não acreditava que pudesse realizá-las; inclusive duvidava seriamente de que algumas fossem realmente acertadas. 
Seu pai a tinha educado para que pensasse e atuasse com liberdade, sempre que esta não ocasionasse prejuízo a seus semelhantes, a fazer dos conhecimentos uma fonte de satisfação, a sentir-se orgulhosa de sua inteligência, de suas vontades de aprender e raciocinar, e não estava disposta a sacrificar tudo isso para conseguir um marido. Preferia ficar solteira a converter-se em uma marionete descerebrada nas mãos de um homem que se nomeava em árbitro do que devia fazer ou dizer. 
Era uma idéia tão humilhante que se considerava incapaz de aceitá-la.
Apreciava muito a sua tia e agradecia seus esforços para casá-la, mas não estava de acordo em que essa atitude fosse adequada para uma esposa irrepreensível, como ela assegurava, e garantisse a estabilidade do matrimônio.
Desde que chegou há Bath duas semanas antes, sua tia não tinha deixado de tentar polir seu rebelde caráter e rústicas maneiras; algo que sempre lhe recordava, assim como adestrá-la nas práticas sociais necessárias para que pudesse ter um certo êxito na temporada social que acabava de começar. 
Tudo isso para conseguir uma proposta de matrimônio, a principal razão de que estivesse ali. 
Charlotte imaginava que, convertê-la em uma correta dama, estava custando a sua tia mais esforço do que calculou no inicio, embora soubesse que seu orgulho lhe impediria de admiti-lo e, é obvio, abandonar a tarefa.
Com um suspiro entre divertido e resignado, fechou os olhos e se entregou a um leve sono propiciado pela placidez que o delicioso almoço lhe tinha ocasionado. Essa era outra das pautas que se negava a seguir: a frugalidade na alimentação que o manual indicava e que sua tia defendia ao extremo, o que a obrigava a se introduzir com freqüência na cozinha e procurar um extra de mantimentos que a ajudassem a agüentar aquela espécie de penitência.
Margaret insistia em que uma dama refinada devia comer pouco e isso a torturava. Certo que a gulodice era inclusive pecado, que provar mais de um bocado resultava excessivo; por isso tinha decidido, com a cumplicidade da cozinheira, prover-se ela mesma do necessário para não morrer de fome enquanto estivesse naquela casa.
Tampouco estava de acordo em levantar-se quase à alvorada para dar um passeio a cavalo pelo parque. Segundo sua tia, tratava-se de um costume elegante ao mesmo tempo em que proveitoso tendo em conta que a essa hora muitos cavalheiros solteiros se dedicavam a tão saudável passatempo. E, embora nenhum lhe tivesse dirigido a palavra, provavelmente pelo fato de passar velozmente a seu lado, Margaret não se desanimava e insistia nisso a cada dia. Enfim, uma insensatez atrás da outra que estava lhe custando muito esforço aguentar.
—Mas é que te tornaste completamente louca, criatura?

Céu em Chamas


No mundo em guerra, o amanhã era apenas um sonho.

A vida de Maggie Lawrence como enfermeira do Exército americano em Manila, nas Filipinas, muda radicalmente, após o ataque japonês a Pearl Harbor. 
Enviada para a ilha de Corregidor, ela entra em contato com um mundo envolto em medo e desolação, e se torna consciente não só da brutalidade mas também do valor da vida. 
E nessa terra de sofrimento que ela conhece Anthony Gargano, um herói das Forças Navais mergulhado no mesmo drama, vítima da mesma guerra cruel e desumana.
Colhidos pelo redemoinho da tormenta, ainda assim eles encontram tempo para viver um amor que não conhece regras e que não pode esperar...

Capítulo Um

A major Kay Broderick recostou a cabeça dolorida no espaldar almofadado da cadeira e apertou na palma da mão a medalha que seu pai ganhara na Primeira Guerra Mundial. Era uma mulher sensata, habituada à rígida disciplina militar e não tinha dúvida quanto à urgência da ordem que devia dar. Não obstante, chocava-a ter que aceitar o inevitável.
Seu primeiro impulso fora o de agarrar-se cegamente à esperança. Mas, agora, tinha certeza de que nada poderia deter o sangrento avanço dos japoneses. A queda de Manila seria, talvez, uma questão de horas.
Afastando o medo, insidioso inimigo entrincheirado em suas próprias entranhas, pôs-se a pensar em de que modo dar cumprimento ao que podia ser considerado como seu último ato oficial. Decorridos alguns minutos, levantou-se lentamente da cadeira, ficou longo tempo parada, ainda esperando que algo acontecesse, e depois atravessou o corredor do hospital com passos firmes.
Ao abrir a porta da enfermaria, um odor familiar invadiu-lhe as narinas. O aroma forte dos anestésicos mesclado ao cheiro do sangue e da podridão, uma estranha emanação que a leve brisa que entrava pelas janelas abertas e os ventiladores que giravam no teto não conseguiam dispersar.
No entanto, o que mais impressionava era o silêncio. Os únicos sons vinham dos homens que jaziam nas macas com os corpos dilacerados e que, sem forças para gritar, gemiam baixinho. Normalmente, o ruído do tráfego teria suplantado a dolorosa quietude. Mas, naquela manhã, o temor parecia ter tomado conta da cidade.
Parada na porta, Kay Broderick sentiu orgulho da dedicação e da disciplina de sua equipe. Sua presença não passara despercebida e, no entanto, o trabalho prosseguia sem interrupção, o punhado de enfermeiras e de atendentes continuando a proporcionar aos feridos todo o conforto que podiam.
Das cento e poucas profissionais que haviam estado sob suas ordens, restavam poucas. Talvez meia dúzia. Mas um número tão reduzido não diminuía sua responsabilidade. Resolveu falar com cada uma, individualmente, a fim de informá-las sobre sua próxima atribuição. Um anúncio geral era não só desnecessário, mas também uma verdadeira ofensa à quietude quase reverente, em meio à qual vidas humanas se esvaíam lentamente.
Transmitiu as ordens em voz baixa e, uma a uma, as jovens inclinavam as cabeças num assentimento mudo, terminavam suas tarefas e saíam discretamente da sala.
Fitou pensativamente a última delas, curvada sobre o soldado com o peito e o abdômen enfaixados. Seu lindo rosto em forma de coração estava tão cheio de piedade que Kay Broderick hesitou um momento, antes de abordá-la.
Sabia que a retirada, difícil para todo o corpo médico, seria particularmente penosa para Maggie Lawrence. A jovem, que provinha de uma antiga família de militares, fora criada no respeito as tradições e no cumprimento do dever. Havia sido sua comandante desde sua chegada a Manila, no ano anterior, e desde o primeiro instante ela provara ser uma daquelas raras criaturas com a capacidade de dar-se integralmente. Imaginava, portanto, como não lhe seria doloroso abandonar seu paciente.
Mas, como não havia outra alternativa viável, ordenou-lhe bruscamente:
— Vamos logo com isso, tenente. Está na hora de deixar seu posto.

1 de setembro de 2014

Lições de Sedução




Ansiosa para viver com independência, Jane de Weston se disfarça como um rapaz. Mas ela não esperava sentir uma forte atração por Duncan. 

Sensações deliciosas percorrem seu corpo feminino. 
Quando ele descobre acidentalmente a verdadeira identidade dela, sabe que deveria mandá-la embora... mas concorda em guardar seu segredo! 
Jane possui o dom de iluminar os recônditos sombrios do coração de Duncan, despertando nele o desejo de ensinar à dedicada pupila os refinados prazeres de ser uma mulher...

Capítulo Um

Inglaterra — final do verão de 1388
O odor do quarto de parto a sufocava.
O fogo crepitava e fervia a água, aquecendo a manhã de agosto.
Ela abriu a cortina que encobria a janela do castelo para respirar o ar fresco. Com certa nostalgia observou o sol brilhando. Talvez mais tarde pudesse pegar um cavalo emprestado e sair para um passeio.
— Jane!
— Sim? — respondeu ela soltando a cortina.
— A dor passou. Solay precisa beber alguma coisa.
Jane seguiu até a pia no canto e encheu uma caneca com água fresca. Devia ter percebido as necessidades da irmã e a atendido antes. Era como se lhe faltasse um instinto nato que outras mulheres possuíam, algo que lhes sussurrava o que devia ser feito.
O papagaio de Solay andava pelo poleiro, as penas verdes do pescoço eriçadas, dizendo:
— Jane! Jane! — O chalrear da ave soava como uma acusação.
Jane se virou para a cama onde a irmã jazia com a barriga alta como uma montanha. As dores vieram em ondas sucessivas durante a noite inteira, dando a Solay pouco tempo para se recuperar. Seu cabelo longo e escuro estava preso e trançado, e os profundos olhos violeta, vermelhos.
Justin, o marido de Solay, afastou a cortina que cobria a porta, mas não entrou no aposento.
— Como está ela? Posso fazer alguma coisa?
Solay abriu os olhos e acenou, mal conseguindo levantar a mão.
— Saia... Não estou arrumada para ser vista.
A mãe das duas foi até a porta e o empurrou para fora.
— Volte para a sala. Jogue xadrez com seu irmão.
— É sempre assim? — perguntou ele sem sair do lugar.
Jane mal o ouviu sussurrar.
— O nascimento de Solay foi parecido — respondeu a mãe sem se preocupar em baixar a voz. — Disseram que foi a noite mais curta do ano, mas para mim foi a mais longa.
— Mas já faz muito tempo.
A certeza da sogra não aplacou o medo estampado no rosto de Justin.
— E ainda vai demorar mais um pouco. Esse é o trabalho de uma mulher. Se quiser fazer algo de útil, vá acordar a parteira. — E ao tocar o braço dele, sussurrou: — E reze para a Virgem Maria.
Jane deu um passo à frente, querendo segui-lo, mas ele era um homem, portanto, livre para fazer o que quisesse. Era ela que estava com vontade de ir acordar a parteira, ou jogar xadrez, ou inspecionar os documentos legais de Justin, para o que sempre tinha a permissão dele. Na verdade, queria estar em qualquer lugar, menos ali.
— Jane! Onde está a água?
Ela voltou para a borda da cama e estendeu a caneca. Solay, que mal era capaz de manter os olhos abertos, acabou esbarrando na mão de Jane e derrubando a água toda na cama.
Solay se surpreendeu.
— Veja o que aconteceu! — ralhou a mãe olhando preocupada para Solay.
E Jane soube que falhara de novo.
— Veja! — gritou o papagaio. — Veja!
— Quieto, Gower! — repreendeu Jane.
Em seguida, tentou enxugar, mas esbarrou na barriga de Solay, e a mãe tirou o pano de sua mão.
— Deite-se, Solay. — Ela procurou secar o lençol molhado, sem tocar na filha. — Descanse. Vai dar tudo certo.
— É sempre assim? — indagou Jane, sussurrando, quando a mãe devolveu-lhe o pano.
— O nenê já vai nascer — respondeu a mãe, baixinho.
Jane torceu o pano sem saber que atitude tomar, receando fazer alguma coisa errada e querendo apenas fugir dali.
— Vou buscar panos limpos.
— Não saia. — O pedido de Solay surpreendeu Jane. — Cante para mim.
Advertindo Jane com o olhar, a mãe foi para o corredor à procura de uma criada e de panos limpos.
Jane tentou entoar as primeiras notas de “Summer Is Icumen In”, mas a voz ficou presa na garganta. Ela, então, olhou para Solay, indefesa.
— Nem isso consigo fazer direito.
— Não se preocupe. Gosto de ter minha irmã caçula por perto. — Solay estendeu a mão, e Jane a segurou, olhando para os dedos trançados.
Os de Solay eram finos, brancos e delicados. Solay representava tudo o que uma mulher devia ser: linda, graciosa, hábil e obsequiosa.
Tudo o que Jane não era. Suas mãos eram quadradas e ásperas. Os dedos, curtos e grossos, só estavam limpos, sem o cheiro de sujeira e cavalos, porque a parteira insistira que lavasse as mãos antes de entrar no quarto de parto.
— Você está bem? — Jane quis saber, quando a irmã apertou sua mão.
— A dor é suportável. — Solay esboçou um sorriso fraco. — Mas acho que terá de receber seu futuro marido sem mim.
Marido. Um estranho para quem teria de submeter a vida. Jane se esquecera de que ele chegaria em um mês.
Tinha feito tudo para esquecer.
— Não quero me casar.
Um marido exigiria que ela fosse como Solay ou sua mãe e soubesse todas aquelas coisas mais estranhas do que latim.
— Eu sei, mas está na hora, você já está com 17 anos. Já passou da hora, na verdade. — Solay apertou-lhe a mão, solidária. E com muito esforço tocou os lábios de Jane. — Veja só. O papagaio vai bicar seu bico. Pelo menos se encontre com ele. Justin disse a seu noivo que você era diferente.
Isso, ela era diferente.
— Ele sabe que quero viajar pelo mundo? E que sei ler em latim?
— Ele é um mercador, e você poderá fazer coisas que a esposa de um nobre não poderia. Além do mais, logo isso perderá a importância para você — afirmou Solay com um sorriso hesitante.
— Você já me disse isso. — Como se o casamento fosse torná-la uma criatura estranha e irreconhecível.
— Se não gostar dele, prometo que não a forçaremos a se casar. Justin e eu só queremos que você seja tão feliz quanto nós.
— Eu sei. — Jane pressionou a mão de Solay contra o rosto. Sonho impossível. Jamais chegaria aos pés da linda irmã, que tentava entendê-la, mas sem muito sucesso.
— Gostaria que você não tivesse cortado o cabelo. — Solay a soltou e acariciou o cabelo curto e loiro da irmã.
— Os homens gostam de cabelo longo, loiro e cacheado como o seu. — De repente, contraiu o rosto e olhou para baixo. — Alguma coisa está acontecendo. Está... eu... está tudo molhado.
Jane ficou imóvel por instantes, antes de correr para a porta, afastar a cortina e gritar:
— Mamãe!

27 de agosto de 2014

A Condessa Ladra







Ela estava na cama do inimigo!

O dever de Brandon Wycroft como Conde de Stockport era pegar o famoso ladrão que roubava dos ricos para alimentar os pobres.
Quando descobriu que o gatuno era uma mulher, Brandon mudou seu plano de ação... E transformou-o em um jogo de sedução.
Misteriosa e tentadora, ela o atormentava. E, quando a rede começou a se fechar em torno da ladra, Brandon percebeu que ele queria protege-la...

Capítulo Um

Perto de Manchester, Inglaterra. No início de dezembro de 1831
Mesmo na escuridão, ele podia sentir a alteração sutil no local. Alguém havia entrado na sala. Brandon Wycroft, quinto conde de Stockport, praguejou baixinho.
O ladrão tinha estado lá. A ironia do roubo não passou despercebida. Enquanto doze distintos cavalheiros se reuniam abaixo em sua biblioteca, fumando seus charutos e bebendo seu conhaque, planejando como pegar a mais recente ameaça à paz, essa mesma ameaça tinha andado em liberdade no último andar e se atreveu a invadir seu santuário privado: o quarto.
Graças a sua excelente audição e o fato de que seus aposentos estavam acima da biblioteca, Brandon tinha ouvido uma cadeira sendo arrastada no piso superior, e tinha subido para investigar. As cortinas esvoaçavam na janela, o que chamou a sua atenção para o frio de inverno inundando seu quarto. A janela estava aberta. Um ligeiro movimento por trás das cortinas delatou o intruso.
Os olhos de Brandon se estreitaram. Seu corpo ficou tenso. Ele corrigiu seu pensamento anterior.
A ameaça não "tinha estado", mas "ainda estava." De pé na porta de seu quarto, ele sabia que seus instintos não estavam errados. O ladrão ainda estava no quarto. A insatisfação de Brandon se transformou em necessidade de vingança.
Depois de um mês a roubar dos ricos e outros potenciais investidores do Stockport Manchester, o reinado do ladrão chegaria ao fim naquela noite. Ele iria pegar o ladrão e, em seguida, acabar com a reunião dos investidores no térreo, que pareciam mais interessados em agradar o nobre da casa do que elaborar um plano.
Então ele poderia voltar ao Parlamento e a controversa reforma legislativa que o aguardava em Londres. Mas primeiro ele tinha que pegar o homem que se escondia atrás da cortina.
Uma figura emergiu das sombras das cortinas.
A figura não estremeceu como Brandon teria imaginado, estava ali, ao lado do peitoril, com luar iluminando sua silhueta de mulher.Uma mulher? O ladrão, o intruso ousado que estava entre ele e o sucesso da tecelagem. Era definitivamente uma mulher. Brandon pensou enquanto seu olhar deslizou para baixo de seu corpo.
Dobras soltas de uma camisa preta cobriam os proeminentes seios. Calças pretas apertadas marcavam a cintura fina e os quadris curvilíneos. Ela o olhou sedutora, mas isso não mudava o fato de que era uma ladra que tinha se infiltrado em sua propriedade e que estava à sua mercê.